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Artigo de Opinião | O regime chinês e a virtude do equilíbrio

Depois da bonança, veio a tempestade: após um congresso onde assegurou mais um termo à frente do PCC e dos destinos da China, Xi Jinping vê o país vivenciar aqueles que são dos protestos internos mais intensos da sua já longa liderança, motivados pela política do “Covid-Zero”, mas despertando cada vez mais problemas adormecidos pelo crescimento económico estonteante vivido nos últimos anos e pelo contrato social estabelecido com a sociedade chinesa. A resposta repressiva do regime não ajuda o país aos olhos da comunidade internacional. Mas poderá a solução não ser extremar, mas equilibrar?

Xi Jinping não escondeu que o seu terceiro mandato iria exigir um reconfigurar de prioridades. Se o líder chinês é conhecido pela sua capacidade de desenvolver e cimentar a Républica Popular da China como a segunda maior economia à escala mundial (e, muito em breve, possivelmente primeira), Xi compreende que a RP China tem agora um papel geopolítico muito mais relevante do que no seu primeiro dia no cargo, motivado por iniciativas como a “One Road One Belt” e pelo seu papel cada vez mais ativo na procura de influência no estrangeiro, particularmente em países em desenvolvimento.

Xi também sabe que a RP China que herdou não é a RP China de hoje: o crescimento da classe média chinesa coloca um enorme desafio ao contrato social que os seus predecessores haviam “celebrado” com a sociedade chinesa. Tinha razão o líder chinês quando falava que o país ia navegar mares tempestuosos nos próximos anos.

Xi está a perder força no campo onde era tradicionalmente mais forte: a economia. Apesar do crescimento económico não estar em questão e a ultrapassagem dos EUA ser uma realidade muito provável nos próximos anos, é inegável que o ritmo do crescimento está a descer. É importante entender que as razões são diversas, estando a guerra na Ucrânia e os efeitos nas cadeias de abastecimento provocados pela pandemia do COVID-19 a exercerem o seu efeito em economias um pouco por todo mundo, mas ainda mais naquelas com fortes relações a nível mundial, como é o caso.

O primeiro pilar do boom económico chinês foi a produtividade da sua população ativa. O crescimento económico da RP China nas últimas décadas teve como um dos seus maiores motores a força de trabalho do país. Ora, uma força de trabalho jovem deslocalizada do interior agrícola do país para trabalhos de forte valor acrescentado nas cidades e megacidades chinesas traduziu-se na base do “milagre chinês”. Não são o único fator, mas talvez o mais relevante. Mas se uma grande percentagem da população do país eram jovens em idade de trabalho (a chamada população ativa), hoje em dia já não é assim. E em muito se deve a política de filho único que vigorou no país.

Agora, face a esta queda da população ativa, o crescimento só poderia ser sustentado por uma tendência inversa na produtividade da mesma. As decisões de Xi de deslocalizar muito daquilo que era a mão de obra qualificado do país de trabalhos de grande valor acrescentado para empresas estatais tem um efeito direto na produtividade económica dos mesmos, levando a antever que o cenário de produtividade do país não terá dias muito solarengos nos próximos anos.

O segundo pilar foi (e é) o ritmo de inovação no país. É verdade que a RP China conseguiu reduzir para níveis históricos a sua dependência externa de tecnologias avançadas, e a política “Made in China 2025” muito para isso contribuiu. Mas agora dois grandes desafios surgem ao ecossistema de inovação chinês: Xi Jinping e Joe Biden.

Começando pelo primeiro, importa compreender as motivações atuais de Xi para o investimento em inovação. Hoje, a inovação chinesa não vem à boleia do crescimento económico, mas sim do crescimento militar e geopolítico. É no campo militar e da segurança interna que as tecnologias mais avançadas do país têm vindo a ser utilizado. Seja para desenvolver um míssil hipersónico ou para assegurar o controlo dos Uyghurs, a economia já não move a inovação, quem a move é a máquina de controlo e influência do Estado.

E é nesta sequência que entra Biden e os EUA. Se um crescimento económico chinês é saudável para a economia mundial e moderadamente aceite nas terras do Tio Sam, um crescimento militar nem tanto. O poderia militar americano é, a par da sua moeda, o sustento da força geopolítica americana. Como tal, a administração Biden tem vindo a assumir uma postura mais assertiva naquilo que diz respeito às restrições a exportações americanas que possam levar ao desenvolvimento de tecnologias como a computação quântica ou inteligência artificial na RP China, tentando sempre não beliscar muito as relações sino-americanas.

Por fim, temos a política de “Prosperidade Comum” de Xi Jinping. Apesar das intenções serem aparentemente louváveis, a expetativa de criar uma sociedade menos desigual na RP China pode dar um duro golpe na atividade empreendedora chinesa. Regulando fortemente setores onde tradicionalmente a atividade empreendedora é grande, Xi está a colocar barreiras a mais um dos motores de crescimento chinês, dificultando ainda mais a sua situação.

Não há uma única conjugação de fatores internos a afetar a economia chinesa. Prova disso é que a economia mundial está a passar por momentos difíceis, aos quais a RP China não é alheia.

No entanto, a obsessão pela segurança nacional chinesa, as ambições geopolíticas e o controlo estatal que Xi Jinping deseja colocam uma camada extra de complexidade aos desafios económicos conjunturais. E aqui entra o “Covid Zero” e a contestação interna, que em nada é alheia ao capítulo económico e social.

Os protestos do mês de dezembro podem ser só o ponto de partida para Xi Jinping. Funcionam como alerta para a liderança chinesa, mas também como oportunidade para a comunidade internacional expressar o seu descontentamento face ao regime chinês, como é exemplo o caso do Reino Unido e de Rishi Sunak, perentórios em afirmar que é preciso “repensar a cordialidade” com a RP China, seja em que moldes for que tal se concretize.

O terceiro mandato de Xi Jinping consolida o seu poder, mas consolida também os seus desafios, sejam eles do foro interno ou externo. Resta ver qual a resposta que aí vem, esperando que a mesma não envolva repressão e autoritarismo expresso em atos reprováveis.

A virtude do equilíbrio está em encontrar o difícil ponto intermédio entre o controlo e ambição geopolítica que Xi Jinping deseja e um crescimento económico robusto, sustentado em políticas de base económica que olhem para a sociedade chinesa em transformação como tal, e não com o olhar do inicio do mandato de Xi Jinping.

 

Por: Miguel Ferreira

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