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Artigo de Opinião | O desporto como elemento de estratégia diplomática e a ligação com o Mundial do Qatar

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Com o Campeonato do Mundo do Qatar à porta, e perante as diversas acusações que o pequeno Estado do Golfo tem vivido desde a sua escolha para organizador da competição, regressou para cima da mesa o debate sobre a interseção entre o desporto, a diplomacia e a política externa. Em que medida serão os megaeventos desportivos oportunidades para os Estados exportarem o seu poder e melhorarem a sua imagem no panorama internacional? E onde se posiciona o Qatar em toda esta situação?

A história do desporto como elemento de soft power diplomático

O desporto ao serviço da diplomacia não é um fenómeno que nasce com o mundial do Qatar, nem sequer com os Jogos Olímpicos de Tóquio ou com os Jogos de Inverno de Sochi, só para dar alguns exemplos. Vai muito além da História recente e até da realidade dos megaeventos desportivos, que são apenas uma pequena parte da diplomacia desportiva.

Antes de entrarmos na diplomacia desportiva per se, importa contextualizar o porquê do desporto ser uma estratégia de soft power. Da forma mais sucinta possível, por soft power entende-se toda e qualquer estratégia diplomática que pretende agir em regime de benefício mútuo para atingir um fim diplomático. Aqui se enquadram estratégias tão distintas como a diplomacia cultural, de saúde, ambiental e, claro está, desportiva. Por hard power (chamado por alguns de diplomacia coerciva) entende-se toda e qualquer relação diplomática estabelecida para coagir a outra parte rumo a um determinado fim.

Ora, o primórdio da diplomacia desportiva tinha uma particular relação com os regimes totalitários: servia como um “balão de teste” para regimes políticos, e fornecia legitimidade aos seus olhos. A Alemanha nazi de Hitler e a Itália fascista de Mussolini são dois dos mais marcados exemplos do fenómeno de instrumentalização do desporto.

Para fins de impacto internacional, Hitler e companhia perceberam que não havia melhor palco para juntar uma porção significativa das nações mundiais do que os megaeventos desportivos. Não é por acaso que os Jogos Olímpicos de 1936 decorrem em Berlim, proporcionando a Hitler a possibilidade de (re)afirmar a supremacia da raça ariana, utilizando as proezas atléticas alemãs como prova disso mesmo. Em jeito de conclusão, recorro às palavras do magnífico Stuart Murray: “os megaeventos podem ser utilizados para reduzir tensões, consolidar relações políticas ou reunir velhos inimigos”.

Não só de multilateralidade se faz a diplomacia desportiva: também a nível bilateral o desporto proporciona uma plataforma para o diálogo diplomático. A diplomacia “ping-pong” de 1971 (assim chamada devido ao desporto em questão), entre China e Estados Unidos da América, começa com o muito antecipado jogo do Campeonato do Mundo da modalidade entre Glenn Cowan (americano) e o então campeão chinês Zhuang Zhedong. A partida abriu as portas a uma tournée da equipa americana pela RP China e serviu para testar uma possível normalização de relações diplomáticas.

A diplomacia desportiva sempre se serviu das celebridades que encabeçam os desportos. Casos claros desta realidade (ainda que distintos no seu fim) são Jesse Owens, atleta olímpico usado como figura de aproximação às nações com atitudes repressivas face à integração racial, ou Dennis Rodman, basquetebolista americano que foi utilizado como ponte de diálogo com o regime norte-coreano pelo governo do seu país.

Atualmente, a diplomacia desportiva evoluiu da utilização de figuras desportivas como veículos diplomáticos para um trabalho articulado entre diplomatas e organizações desportivas, atletas e até multinacionais ligadas à área, alargando assim o espetro de atuação e impacto da estratégia diplomática.

Hoje em dia, países como a Austrália definem estratégias a longo prazo para a utilização do desporto como veículo diplomático, estabelecendo objetivos para a sua utilização como o desenvolvimento de parcerias estratégicas com países-vizinhos ou a maximização do aproveitamento de oportunidades económicas com outros países, entre outros objetivos.

Para o bem e para o mal: as duas faces da moeda

Se a diplomacia teria, num mundo utópico, um efeito quase assegurado de benefício mútuo e aproximação entre Estados, nem só de rosas se faz o mar diplomático onde o desporto se insere.

Voltando ao caso sino-americano para simplificação explicativa, se em 1971 a diplomacia “ping-pong” abriu as portas a um normalizar de relações, introduzindo a figura do basquetebolista Yao Ming como o primeiro “rosto” chinês amplamente conhecido nos EUA, o boicote diplomático americano de 2021 aos Jogos Olímpicos de Inverno na China são a prova do contrário. Realizado numa altura de tensão significativa entre EUA e China, o boicote diplomático àquela que seria a rentrée internacional da nação chinesa após a pandemia da Covid-19 só serviu para agudizar as tensões entre as duas superpotências mais relevantes do séc. XXI.

Mas o boicote diplomático de nações a eventos desportivos não nasce em 2021. Já em 1980 os Estados Unidos tinham feito um boicote total aos Jogos de Moscovo, como forma de protesto à invasão do Afeganistão por parte da União Soviética. Os EUA receberam o troco quando, em 1984, em Los Angeles, a URSS e cerca de mais 14 estados-satélite boicotaram a competição em solo americano.

Da decisão ao início da competição, uma enorme trapalhada

Aqui entramos no capítulo da diplomacia desportiva como mecanismo de combate às violações de direitos humanos e, consequentemente, no histórico recente do Mundial do Qatar e das acusações de corrupção nos organismos desportivos internacionais.

Se as acusações de corrupção no seio das organizações internacionais que gerem o desporto a nível internacional, tendo como expoentes máximos o Comité Olímpico Internacional (COI) e a FIFA, não são novidade, os últimos anos têm servido para elevar estas acusações a expoentes nunca antes vistos, acumulando-se os escândalos.

A escolha do Qatar para o Campeonato do Mundo de 2022 enquadra-se nestas polémicas. Desde o início, foi uma escolha envolta em criticismo, devido ao registo autocrático do país, às violações de direitos humanos presentes na sociedade qatari, e ainda ao alegado pagamento de subornos a membros do comité executivo da FIFA, com vista a acelerar o processo de atribuição da responsabilidade de organização do Mundial, em detrimento de outras candidaturas.

A este caldeirão ainda acresce o facto de o Qatar financiar, em grande parte, a organização da competição com dinheiro proveniente da exploração de recursos fósseis altamente poluentes e danificadores do meio-ambiente.

Se a princípio o verniz já havia estalado, o processo não melhorou com a sua preparação: sucessivas acusações de maus-tratos e violações de direitos humanos contra os trabalhadores migrantes, que constituem uma parte muito significativa da mão-de-obra responsável pela construção dos estádios e infraestruturas desportivas, denegriu ainda mais a posição do Qatar e da FIFA na organização deste Mundial de futebol.

Os últimos dias têm posto a nu as fragilidades do Estado do Médio-Oriente do ponto de vista dos direitos humanos, com um dos embaixadores da competição, Khalid Salman, a afirmar que, e parafraseando, “a homossexualidade é uma doença”, entre outras frases lamentáveis que têm sido proferidas ao longo do tempo.

No fim de contas, o Qatar tinha duas grandes opções com a realização deste Mundial. Uma seria aproveitar a competição como uma estratégia de renovação da imagem diplomática aos olhos do mundo, fazendo avançar reformas em algumas das suas leis mais restritivas, e promovendo um Qatar renovado, inovador e aberto ao mundo, e respeitador dos direitos humanos, aproximando-se da legitimação à escala mundial. A outra seria construir uma realidade alternativa, por cerca de um mês, de aproximação (esperemos) aos valores dos direitos humanos, procurando assim fazer uma “limpeza” da sua imagem no panorama internacional. Esta atuação soa a artificial e poderá minar ainda mais a sua credibilidade.

Podemos afirmar, ainda que cautelosamente, que estamos mais próximos da segunda opção do que da primeira.

Se a nível federativo as demonstrações de desagrado têm sido tímidas, mas não inexistentes (a Federação de Futebol do Canadá veio já criticar a organização, por exemplo), os atletas têm-se feito ouvir, com casos como o de Bruno Fernandes a lembrarem os trabalhadores que morreram no decorrer dos trabalhos de construção dos estádios da prova, entre outros.

Em jeito de conclusão, adivinha-se um Mundial de futebol polarizador e polémico. Se a cautela tem sido a palavra de honra entre as representações federativas, será interessante perceber até que ponto essa posição será mantida no caso de existir algum episódio lamentável durante a competição. Poderemos ter seleções ou jogadores a renunciar? É esperar para ver, mas não é um cenário a descartar.

Por: Miguel Ferreira


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