Domingo, Dezembro 8, 2019
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A Infertilidade na Sociedade – Passado, Presente e Futuro por Leonor Simões

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Em Portugal a taxa de natalidade tem vindo a diminuir ao longo do tempo. Nos atuais
contextos económico e social, assiste-se a uma diminuição no número de filhos e a um
adiamento da idade da mulher ao primeiro filho.

Muito ligada a esta “maternidade tardia” está a infertilidade, considerada pela Organização Mundial de Saúde como um problema de saúde pública, e definida como “uma doença do sistema reprodutivo, traduzida na incapacidade de
obter uma gravidez após 12 meses ou mais de relações sexuais regulares e sem contraceção”.

A infertilidade deve ser abordada como um problema do casal e não da mulher, como
tradicionalmente se considerava, e também importa contrariar a pressão social da
parentalidade e a associação errada da infertilidade à virilidade masculina, que leva por vezes
ao sofrimento e à recusa por alguns homens a submeterem-se a exames para estudo de
infertilidade, por receio de serem considerados “menos homens”.

É essencial também informar acerca da influência da idade na fertilidade, sobretudo na
mulher, e educar para a importância de prevenir fatores de risco como a obesidade, tabagismo
ou outros.

Cabe aos profissionais de saúde esclarecer o casal e contribuir para um planeamento
familiar ajustado às suas circunstâncias, sendo fundamental o casal marcar uma consulta préconcecional na sua unidade de saúde, quando pretende engravidar.

É frequente os casais procurarem tardiamente ajuda – devem recorrer ao seu médico de
família se não tiverem obtido gravidez ao fim de 12 meses (ou 6 meses, se a mulher tiver 35
anos ou mais, ou em outras situações especiais, como tratamento anterior por cancro).

O médico de família deve adotar uma atitude pró-ativa nesta problemática, questionando
espontaneamente o casal se está a tentar engravidar e há quanto tempo, para ser possível a
referenciação precoce à consulta de apoio à fertilidade.

A infertilidade pode tornar-se numa caminhada longa e desgastante, sendo o apoio de
familiares e amigos essencial.

Por vezes o desejo de ter um filho torna-se numa espécie de “corrida contra o tempo”, causando grande instabilidade emocional, ou curiosamente até motivar uma maior cumplicidade no casal, pelo sentimento de união num objetivo comum.

É frequente durante os tratamentos a intimidade do casal tornar-se menos “natural”, podendo
gerar disfunções sexuais, a que o médico de família deve estar atento e abordar.

O Serviço Nacional de Saúde (SNS) comparticipa totalmente os tratamentos, mas
existem limitações legais e listas de espera superiores ao desejado.

Em Portugal, há uma lista de espera longa na doação de ovócitos e espermatozóides, o que dificulta a capacidade de resposta em tempo útil.

Em média, são precisos 3 ciclos de tratamento para a obtenção de uma gravidez, e o limite de ciclos no SNS é de 3 por casal, possíveis apenas até uma determinada idade da mulher (dependente da técnica, mas no máximo de 41 anos e 364 dias), o que faz com que muitos casais “esgotem” as suas possibilidades no SNS.

Apesar dos avanços, os tratamentos continuam a ser caros, e para os casais em que a única opção que resta é recorrer ao privado, assiste-se por vezes ao endividamento do casal, na procura de soluções.

É por isso urgente discutir sem barreiras e preconceitos o tema e procurar ativamente
soluções para ampliar a resposta e o acesso a tratamento destes casais, ajudando-os a destruir
os muros que impedem a construção da família que tanto desejam, e de que o país precisa, para
assegurar a renovação das gerações.

Maria Leonor Táboas Simões (Nome clínico: Leonor Simões)

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