Segunda-feira, Outubro 14, 2019
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Cigarro Eletrónico: Uma mais-valia ou uma falsa segurança? Artigo de Opinião por Dra. Silvana Moreira

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O consumo de tabaco é dos mais importantes fatores evitáveis de doença crónica e mortalidade prematura a nível mundial. Apesar dos esforços e medidas de prevenção e controlo que têm sido implementadas desde a década de 80, Portugal continua a ser o país onde menos fumadores querem deixar de fumar e efetivamente o conseguem, em que os jovens começam a fumar mais cedo e onde as mulheres têm aumentado o consumo.

Numa era em que se avistava o fim do fumo do tabaco, graças a várias iniciativas, campanhas e legislação, surge o dispositivo eletrónico de dispensa de nicotina, ENDS (Electronic Nicotine Delivery Systems) ou correntemente denominado cigarro eletrónico. Neste, para além da nicotina, são libertadas outras substâncias sobre a forma de aerossol que permitem a conjugação de variadíssimos aromas. Por se tratar de um dispositivo altamente adaptável aos meios tecnológicos atuais, como o telemóvel, torna-se “elegante” e extremamente atrativo para os mais jovens.

No entanto, e à semelhança do que aconteceu no passado com o cigarro convencional, onde se demorou a provar efetivamente a causa-efeito dos malefícios hoje tão bem conhecidos do consumo de tabaco, também atualmente ainda não existem dados sobre os efeitos do cigarro eletrónico. Mesmo assim, continuamos a assistir ao seu crescente consumo diário e experimentação. As principais causas apontadas para este crescimento assentam na possibilidade deste dispositivo poder ajudar a deixar o tabaco tradicional, sendo apresentado como uma possível alternativa, menos prejudicial, ao cigarro convencional mas também por apresentar um custo inferior e, por ser possível em vários países contornar as “leis do fumo”, sendo permitido o seu consumo em locais públicos. O facto de ser uma novidade fortemente publicitada e tendencialmente na moda é apontado igualmente como uma fonte aliciante para o consumo deste dispositivo.

De facto, o cigarro eletrónico não produz o monóxido carbono, mas as suas altas temperaturas promovem uma degradação dos componentes, formando outras substâncias potencialmente prejudiciais que associadas a inalações frequentes podem ter consequências nefastas no organismo. Na verdade, por ser apresentado como sendo inofensivo, alicia os não fumadores e as camadas mais jovens, mas também cria uma falsa segurança promovendo o seu consumo em grupos vulneráveis como as grávidas, perpetuando consumos e adiando a cessação tabágica definitiva. Por outro lado, é importante referir que, grande parte destes consumidores é duplamente consumidora, isto é, consome cigarro eletrónico e convencional, que por apresentarem formas distintas de atuação, podem acarretar riscos adicionais.

Assim, a ambivalência gerada pela incerteza e contradição da informação científica disponível não permitem atualmente afirmar que o consumo do cigarro eletrónico seja mais seguro do que o consumo de cigarros convencionais, muito pelo contrário, pode ser uma rampa de lançamento para a aquisição de hábitos tabágicos. Pelo que cabe a cada um e, principalmente a nós, Médicos de Família, consciencializar os consumidores para os possíveis malefícios desta inovação e, em primeira instância, incentivar sempre à cessação tabágica privilegiando as terapêuticas já conhecidas e devidamente aprovadas para essa finalidade.
Pior que acreditar numa falsa mais-valia, é acreditar numa falsa segurança.

Dra. Silvana Moreira, Interna de Formação Específica de Medicina Geral e Familiar na
USF Baltar, ACeS Tâmega II.

2 Comments

  1. Bom artigo Dra. Silvana,

    É preciso informar e sensibilizar as pessoas sobre o cigarro electrónico. Um tema tão atual como este na nossa sociedade precisa de atenção, pois os riscos não são claros para a maioria das pessoas que fumam.

  2. Permita-me discordar desta opinião, olhem para o caso do UK, onde o Royal College of Physicians ( entidade que à 50 anos atrás disse que o tabaco matava) aconselha o cigarro electrónico como a melhor forma de substituição e redução de danos do tabaco convencional, já existem duas lojas de cigarros electrónico dentro de hospitais para ajudar os utentes a deixar de fumar, como extensivos estudos desta entidade em que claramente mostra que o cigarro electrónico é 95% menos prejudicial que o tabaco convencional.
    Temos direito a ser informados e não desinformados em nome das grandes farmacêuticas e tabaqueiras…
    Deixo aqui um exemplo de um fármaco que tem como objetivo ajudar a deixar de fumar e depois no folheto de efeitos secundários diz que pode causar pesadelos e tendências suicidas ???
    https://www.gov.uk/government/news/e-cigarettes-around-95-less-harmful-than-tobacco-estimates-landmark-review&ved=2ahUKEwjmzvHh7drkAhUox4UKHS31APsQFjAAegQIAxAB&usg=AOvVaw3YnhRWYcSBKigXpzoGj1Ed&cshid=1568826474588
    https://www.google.com/url?sa=t&source=web&rct=j&url=https://amp.theguardian.com/society/2019/jul/10/vape-shops-hospital-smokers-kick-habit-west-midlands&ved=2ahUKEwiHycWx7trkAhVMqxoKHSLbC4oQFjAAegQIARAB&usg=AOvVaw1cKjOapUZ7fgNXURSEVpOb&ampcf=1

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