Domingo, Setembro 15, 2019
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Envelhecimento ativo: o caminho para envelhecer com qualidade

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O envelhecimento da população portuguesa é hoje uma realidade. Portugal, assim como outros países da Europa, tem registado nas últimas décadas profundas alterações demográficas, sobretudo devido ao aumento da esperança de vida e à diminuição da natalidade.

Em 2018, a população idosa (pessoas com 65 ou mais anos) representava 21,8% de toda a população portuguesa e a esperança de vida atingiu os 77,4 anos para os homens e 83,2 anos para as mulheres. Segundo as previsões da Comissão Europeia para o ano 2070, a tendência para o envelhecimento populacional irá continuar, pelo que é fundamental uma reflexão profunda sobre o seu impacto, não só por parte dos órgãos políticos, sistemas de saúde e sociais mas também pela sociedade como um todo.

O aumento da esperança de vida constitui uma vitória do desenvolvimento socioeconómico e da saúde pública, refletindo importantes conquistas da nossa sociedade, desde a melhoria da qualidade de vida e dos cuidados de saúde até à melhoria da educação, rendimentos e condições de habitabilidade. Por outro lado, o envelhecimento está associado a um maior número de doenças crónicas e a perda das capacidades físicas e mentais, podendo pôr em causa a capacidade funcional, independência e a qualidade de vida do idoso.

Pelo exposto, facilmente se compreende que viver mais anos, não significa necessariamente viver com qualidade. É neste contexto que surge o conceito de Envelhecimento Ativo, que consiste num processo que tem como objetivo assegurar a existência de todas as condições necessárias a um envelhecimento com saúde, autonomia e independência, até tão tarde quanto possível, e também garantir a participação do idoso enquanto cidadão na vida social, económica e cultural.

Mas como está Portugal nesta matéria? Segundo o Índice de Envelhecimento Ativo, um índice que avalia o modo de envelhecer dos 28 países da União Europeia, Portugal ocupa a 16ª posição, estando abaixo da média europeia. O estado de saúde é um dos fatores que explica este resultado, sendo uma das fragilidades a melhorar.

Como médica, olho para estes dados com preocupação, considerando fundamental a sensibilização da população para esta temática logo desde o início da vida adulta. Cabe a cada indivíduo, e particularmente ao idoso, ser pró-ativo no seu processo de envelhecimento, mantendo um acompanhamento médico regular, adotando estilos de vida saudáveis, desde uma alimentação equilibrada até à prática regular de exercício físico, realizando as vacinas e rastreios recomendados e contribuindo para a gestão e controlo das suas doenças crónicas. A realização de atividades que exercitem o raciocínio e a memória, tais como a leitura e jogos, bem como a integração em Centros de Dia, Universidades Seniores e em grupos de convívio, comunitários ou de voluntariado são excelentes oportunidades para o idoso se manter ativo e integrado na vida social, evitando o isolamento e a depressão. É também fundamental que as famílias representem um ponto de equilíbrio e de apoio e, sobretudo, uma fonte de dignidade na vida do idoso.

Em todo o processo de envelhecimento, o Médico de Família encontra-se, sem dúvida, numa posição privilegiada para prestar o devido aconselhamento aos seus utentes,  uma vez que os acompanha ao longo das várias etapas da sua vida. Sendo o médico, não raras vezes, um dos principais apoios do idoso, considero ainda que a criação formal de uma consulta específica de Saúde do Idoso a nível dos Cuidados de Saúde Primários seria fundamental para a devida vigilância deste grupo vulnerável.

Não esqueçamos, no entanto, que o Envelhecimento Ativo implica uma atuação a múltiplos níveis pelo que se torna prioritária a publicação e implementação da Estratégia Nacional para o Envelhecimento Ativo e Saudável 2017- 2025, para que um caminho de melhoria mais sólido comece a ser traçado. Porque envelhecer com qualidade é não só uma responsabilidade individual de cada pessoa, mas também de todos nós enquanto sociedade.

Autora: Joana Frasco, Médica Interna de Medicina Geral e Familiar USF São Martinho.

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