Segunda-feira, Agosto 19, 2019
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“Pernas… para que vos quero?!” por Dr Nuno Gonçalves

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O termo atividade física, inclui qualquer movimento realizado pela musculatura esquelética do corpo, que resulte num gasto de energia acima dos valores de repouso. Enquanto que exercício físico compreende toda a prática consciente de atividade física, realizada com um objetivo específico, bem delineada no tempo e é geralmente uma prática planeada. O termo desporto associa-se ao jogo e à competição.

De uma forma mais abrangente, e em oposição à atividade física, a inatividade física é um fator de risco importante para as principais doenças não-transmissíveis e está, por essa via, associada à morte prematura de cerca de 5,3 milhões de pessoas anualmente, em todo o mundo. Na população portuguesa, em 2008, a inatividade física foi responsável por 8,4% das mortes por doenças cardiovasculares, 10,5% por diabetes tipo 2, 14,2% por cancro da mama, 15,1% por cancro do cólon e 13,6% por todas as causas.

Estima-se que, se a inatividade física atingisse (apenas) 50% da população portuguesa, os custos seriam de cerca de 900 milhões de euros. No entanto, a inatividade física parece atingir níveis tão elevados como 77% da nossa população. Apenas 15-20% dos adultos portugueses realiza mais de 150 minutos de atividade física moderada ou vigorosa por semana e, nos momentos de lazer, quase 60% dos homens e 70% das mulheres não pratica qualquer “exercício físico”.

No seu conjunto, estes valores mostram a dimensão do problema associado à inatividade física e reforçam a necessidade urgente de estratégias integradas para a redução dos comportamentos sedentários e aumento dos níveis de atividade física na população.

A nível internacional as recomendações propõem que cada adulto deve procurar acumular 150 minutos de atividade física moderada por semana, ou 75 minutos de atividade vigorosa, ou uma combinação equivalente.

Em Portugal, nos últimos anos, têm sido feitos inúmeros esforços para promover a implementação dessas recomendações na nossa população, através do desenvolvimento da “Estratégia Nacional para a Promoção da Atividade Física, da Saúde e do Bem-Estar”, da definição do “Programa Nacional para a Promoção da Atividade Física”, entre outras iniciativas. Todas elas visam a diminuição do sedentarismo e o aumento dos níveis de atividade física na população portuguesa.

Sem por em causa a importância clínica e a validade científica destas recomendações a pergunta que surge é se os profissionais de saúde, por si só, serão capazes de pôr em prática e aplicar as recomendações para a atividade física aos seus doentes. Isto porque, como todos sabemos, os determinantes que condicionam a prática de atividade física são muito variados e estão relacionados com múltiplos fatores, quer individuais, quer ambientais, ou até mesmo político-económicos.

Relativamente aos comportamentos adotados por cada pessoa, as principais razões para a não prática de atividade física são a falta de tempo em primeiro lugar, seguido da falta de motivação ou interesse e o facto de ser muito dispendioso.

Sabendo que a maioria dos indivíduos não é filiado em qualquer clube e pratica exercício ou atividade física no parque ou ar livre, as questões de falta de tempo e motivação pessoal para a prática tomam particular importância. Nesta área, a formação de profissionais competentes na área da promoção e prescrição de exercício parece ser um dos caminhos. Além disso, parece ser preponderante a promoção da atividade física desde tenra idade, por forma a facilitar a adesão a estes hábitos de vida saudáveis ao longo de toda a vida.

Por outro lado, se pensarmos nos fatores ambientais, nomeadamente no que diz respeito às infraestruturas disponíveis na comunidade e à acessibilidade às estruturas já existentes, constatamos que muitos são os portugueses sem zonas verdes ou de lazer perto da sua área de residência, sem meios de transporte para os locais de prática de exercício físico, ou sem qualquer clube com modalidades desportivas na sua região.

A verdade é que o caminho está traçado e faz-se caminhando. E apesar de ainda haver muito por fazer, só com o esforço de todos os agentes envolvidos se poderão atingir os objetivos propostos e melhorar gradualmente a saúde das populações

Autor: Nuno Gonçalves

(médico interno do 4º ano de especialidade de Medicina Geral e Familiar)

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